Velas coloridas – Haydée Colussi

Por Haydée Colussi, 29 de julho de 2009 11:10

VELAS – COMO FAZE-LAS SEM ENDOIDAR

Tempos atrás fui tomada pelo impulso irresistível de fazer velas de cera.

Comprei os principais ingredientes, peguei algumas panelas com as quais até então só cozinhara, uma para derreter as coisas e outra para o banho-maria e munida de moldes e formas comecei.

Logo de cara me deparei com o problema de usar corantes. Naquela época eles não se misturavam com a cera e tudo virava uma droga de pasta que não dava prá se moldar. Pior, depois de estragada, eu não conseguia tornar a utilizá-la e lá se foram então alguns litros de cera,outros tantos de parafina, mais o gel e outras coisas mais.

A aventura estava ficando meio cara.

Parecia que este meu desbravar dos meandros do artesanato das velas iria me levar para a beira de um riacho onde daria com meus belos burros na água e isto se não me levasse antes à falência.

Não desisti e por uma virada da sorte, caiu-me dentro da parafina quente, agora em quantidade bem menor, meu lápis também de cera que eu estava usando para anotações. Enquanto tentava resgatá-lo ele lá foi se derretendo e colorindo lindamente a sopa de fazer vela.

Pareceu-me um milagre e eu comecei a derreter menores quantidades e a usar mais lápis.

Fiz um vermelho lindo, um azul luminoso, um amarelo intrigante que parecia fosforescer no escuro e um verde mágico de tão lindo que iluminava qualquer coisa.

Nesta altura do andar da carruagem já tinham sido postas em uso minhas melhores panelas, mas tudo bem. A arte vinha em primeiro lugar.

Aos poucos fui ficando mais esperta e o trabalho começou a render pequenos frutos.

Já conseguia fazer velas cilíndricas coloridas, velas de mais de uma cor e assim por diante. Velas cúbicas também de cores variadas e muito interessantes, algumas piramidais de base quadrada feito a do Louvre só que de cor mais opaca e tamanho bem mais reduzido.

O que mais me impressionava é que de alguma forma minha casa adquiria novas cores e ficava assim como as velas, luminescente.

Mais segura aumentei as quantidades e as panelas ficavam cheias de cera para a feitura das velas.

Então, com um resvalo e um puxão, o acidente.

Lá se foram para o assoalho irregular e velho algumas panelas cheias de cera quente entornando tudo.

Deu tempo de eu pular fora mas o piso não conseguiu sair do lugar naturalmente e ficou cheio, nas frestas e buracos, de cera líquida que rapidamente se solidificou num arco íris de cera dura.

A confusão foi tão grande que não houve outro jeito.

Troquei todo o assoalho.

Quando fiquei farta de fazer tantas velas que só se acumulavam pela casa toda parei.

Foi neste mágico instante de lucidez que percebi a real causa de tamanha luminescência.

Minha casa havia se tornado uma espécie de casulo de paredes recobertas de cera que limpeza nenhuma conseguiu retirar.

O problema se resolveu quando, num golpe de sorte, vendi minha casa para um mecânico que nela instalou sua oficina de consertar carros. Era um homem estranho para quem as paredes recobertas de cera brilhante nada significavam.

 

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7 comentários para “Velas coloridas – Haydée Colussi”

  1. GUTIERRITOS disse:

    HAYDÉE

    A arte, muitas vezes, deixa marcas profundas.

    Mas mesmo assim não podemos vender nossa casa, experiente com o aprendizado que vem e sempre virá.

    É evidente que estou falando em sentido figurado, pois fois correta e certa a decisão de vender a casa.

    Parabéns pelo seu texto.

    Haydée Colussi respondeu:

    @GUTIERRITOS,
    Gutierritos,

    Este texto é verdadeiro e na época eu vivia numa rua linda, paralela à Marques de São Vicente e quase em frente ao conjunto da PUC onde eu estudava.

    Quando minha casa ficou que era vela pura eu na verdade fiz uma troca com um jovem artista amigo meu que trabalhava com aço e outros tipos de metais e fui morar na casa dele, lá no Jardim Botânico enquanto ele ficava com a minha. Ele hoje vive em Paris.

    Quando a devolveu, alguns anos depois, ela estava desimpedida da cera e toda pintada de novo com algumas esculturas lindas estrategicamente colocadas.

    Foi um tempo muito bom e produtivo. Na época eu comecei a pintar e fiz algumas exposições por aí.

    Nossa, contei uma história que não estava programada.

    Beijos querido e obrigada por ler e comentar o que eu escrevo,

    Perdoa se houver algum erro de Português mas com os infinitivos eu tenho dificuldades.

    Beijos
    Deia

  2. Ana Lucia Timotheo da Costa disse:

    Deia querida,
    Fazer arte, de que espécie for(rsrsrs) é sempre muito bom. Um beijo. Ana

    Haydée Colussi respondeu:

    @Ana Lucia Timotheo da Costa,
    Aninha querida,
    Quer saber de uma coisa sua danadinha. Você está certíssima. É a melhor coisa do mundo.
    Beijos
    Deia

  3. Haydée Colussi disse:

    @Charles Silva,
    Charles querido,

    Pois não digo sempre que fazes bom texto com qualquer tempo?

    Não importa o que abordes tu sempre o fazes de forma mais leve do que se poderia imaginar.

    Quando penso tijolo tu escreves bloco de gelo. Se penso rocha tu escreves poeira de estrelas.
    E tudo se encaixa e se veste de tecido novo e tênue.
    Adoro teu texto e teu brincar com as palavras.
    Pegaste minha sopa de macarrão pesado e a transformaste em consomé de nuvem salgadinha.
    Beijos
    Deia

  4. Sonia Quartin disse:

    Amiga Déia
    Fazer arte as vezes é doído e complicado. Mas para o artista é como uma nacessidade imperiosa, como comer e respirar. Não importa se dá lucro ao artista. É o nosso momento. Sinto isso ao escrever meus textos. Tem valor? Que importa! Preciso escrever! só isso!
    ]Beijos Sonia Quartin

    Haydée Colussi respondeu:

    @Sonia Quartin,

    Soninha querida,
    Como você está certa.
    É assim mesmo. Nada consegue impedir esse tipo de brotar. Vem com força e subjuga a gente por mais caro, doido e estranho que seja..
    Beijos
    Deia



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