Vitimização e sadomasoquismo – Lu Dias
Dias atrás, a minha filha chegou desconsolada e raivosa, com uma nota que recebera numa prova, pois achava que essa se encontrava abaixo do valor merecido.
E como é do meu feitio, jamais adotar o comportamento de leoa, para proteger o meu rebento, pois acredito que esse seja danoso a sua adaptação ao mundo, calmamente pedi-lhe que me desse as razões pelas quais se sentia injustiçada.
Ouvi-as e sugeri que voltasse a conversar com o professor, demonstrando serenidade, segurança e, sobretudo, capacidade de dialogar e aceitar as respostas dele. Expliquei-lhe que todo ser humano, por maior que seja a sua carga intelectual, está fadado a cometer erros, mas que a proporção de um professor errar é bem menor do que a de um aluno.
Para fechar o preâmbulo, devo dizer que tudo saiu a contento. Realmente o professor havia se enganado, pois o dia lhe fora muito estressante, com doença na família.
Acho que a raiva da minha filhota era importante, de modo a torná-la menos vulnerável às repercussões emocionais que vão acompanhá-la ao longo da vida. Não a incentivei a se calar, até porque considero a omissão o maior dos pecados da humanidade, mas a buscar caminhos, de modo a extravasar a sua indignação.
Na forma de lhe apresentar o mundo, uma preocupação está sempre presente em mim: o medo de que passe a agir como vítima. E, qualquer emoção não bem trabalhada, é uma colher de cimento na construção desse estado pavoroso de vitimização.
Certa vez li que “vítima é alguém que já se considera morto.”
Achei o argumento genial, quando o confrontei com pessoas, que conheço e que vivem em tal estado (não me refiro aqui à pessoa contra quem se comete um crime ou uma contravenção).
As “minhas vítimas” são pessoas que se recusam a viver, porque possuem uma inaceitabilidade muito resistente contra o mundo que está aí. Vestem uma couraça e se auto protegem contra tudo e todos, da maneira mais covarde possível, optando por não viver plenamente.
É fato, que viver confrontando os problemas que a família, a sociedade e o mundo trazem para todos nós, não é fácil. Mas, ainda assim, é muito melhor do que vestir a roupagem da vítima, “extremamente sensível” às agruras do mundo.
Algumas há que se sentem muito bem, nessa espécie de casulo. Mas, conviver com elas é insuportável, pois sugam, de quem vive em seu derredor, toda a energia amealhada com muita força e coragem.
Tais vítimas possuem uma ferramenta que trazem sempre às mãos: a chantagem emocional. E, como sanguessugas, tiram a última gota de sangue dos desavisados que as levam a sério.
Fingem entregar a outros as chaves de seu destino, de modo que planejem e executem-no, pois estão “fragilizadas” em demasia, para enfrentar os problemas acarretados pela existência.
Mentira! É tudo uma farsa! Na verdade, são elas quem carrega nas mãos, a saúde física e emocional daqueles que consigo convivem. Querem encarcerá-los no mesmo casulo de egoísmo, egocentrismo e covardia em que estão escondidas. São seres sadomasoquistas!
Quando carregamos uma boa imagem do que somos, estamos caminhando para alcançar uma meta. E nos tornamos fortes e inabaláveis diante das hostilidades que se encontram no nosso caminho, jogando-as, à margem da estrada, e passando adiante.
Todos nós, mesmo que oprimidos por uma causa ou outra, não podemos aceitar o estado vicioso de vítima, pois seria como passar o ouro ao bandido, ao se entregar à autocomiseração e ao masoquismo.
Quanto mais difícil o caminho, mais forte devem ser as passadas.
Caro leitor, permita-me fechar a minha reflexão com o pensamento do escritor negro Howard Thurman:
“A hostilidade costuma alimentar a ilusão da auto importância e do orgulho. Muitas pessoas se sentiriam ludibriadas, se de repente fossem privadas da definição do ego que seu sofrimento lhes dá”.
Abraços!
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Lu,
costumo usar uma balança mental, não digital.
Em um prato, ponho minhas “coisas ruins”, tudinho mesmo: maltratos, dores, falta de amores, dificuldades, etc….. No outro coloco as coisas boas de minha vida. Apesar do peso das dores, o prato das coisa boas ficam lá embaixo, de tanto peso!
Então, fico certa de que não sou vítima. Nasci abençoada. E, depois que comecei a aprender que não preciso carregar o peso de problemas alheios e nem assumir responsabilidades sob rfe tais problemas, estou vivendo melhor. Espero passar a outra metade de minha vida desta forma( será que terei mais 60 anos para viver assim? he he he).
Beijosa,
TT
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 18:23
@Terezinha,
TT
Esta é a postura aconselhada para se viver.
Para o bem de cada um.
Até que me provem o contrário, acredito apenas nesta vida.
Logo, é aqui que quero me dar ao luxo de tentar ser feliz.
Também me sinto abençoada pela vida.
Acho que recebi mais do que mereço.
A minha dívida com ela é que é grande.
Ela não me deve nada.
Pensando assim, você chegará aos 120 anos, tenha a certeza disso.
Beijos,
lu
Lu,
Como sempre um texto lúcido e importante sobre a vida.
As mães, especialmente as mães, como sofrem com os filhos sadomasoquistas. Não querem lutar por nada, querem tudo nas mãos, usam e abusam dos pais e das pessoas ao seu redor.
São os verdadeiros “coitadinhos”, incapazes de qualquer reação, ação ou emoção verdadeira, esperando que os outros, os próximos, resolvam seus problemas.
Só que a vida real cobra caro destas pessoas, quando tem que assumir suas posições no emprego, na escola, na sociedade. Sofrem de verdade porque, a não ser que encontrem parceiros masoquistas, tem que encarar a vida de frente e não estão mínimamente preparados para isto.
Os pais tem muita responsabilidade nesta educação, embora não tenham sido preparados para isto e, às vezes, padecem com a convivência desgastante.
Seu exemplo, com sua filha, foi uma aula de como lidar com os filhos.Parabéns.
Abrs.do GERALDO MAGELA
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 18:37
@GERALDO MAGELA,
Magela
A verdade é que, para que os filhos aprendam a viver, os pais precisam permitir que andem com as próprias pernas.
Tornando-os pessoas responsáveis, que não se abatem diante de qualquer obstáculo.
O mundo não foi feito para os medrosos.
E os pais não vivem eternamente para protegerem os filhos.
Eles devem ser preparados para servir o mundo e não aos familiares.
Certa vez, li um depoimento de um pai, cuja posição na sociedade é muito boa, sendo questionado o porquê de deixar seus filhos estudarem em escolas públicas.
Ele respondeu que o ambiente da escola pública é uma pequena amostragem da vida no mundo.
Ali se encontram pessoas das mais variadas etnias, credos religiosos e políticos, culturas diferenciadas, etc.
E que, a preocupação dele, era educar seus filhos para viverem no mundo com toda a sua diversidade.
Disse ainda que conhecimento, eles tinham em casa, de toda espécie: revistas, jornais, internet… mas que aquele tipo de aprendizado só poderia ser repassado pela escola pública.
Registrei aquilo na minha mente.
E, quando a escola pública passou a aceitar crianças com problemas mentais leves, convivendo na mesma sala, eu só pude aplaudir.
Hoje, o que vemos, principalmente nas classes ricas, são verdadeiros reizinhos.
Certa vez li, numa reportagem, que os hotéis alemães detestam as crianças e brasileiras, pois tudo lhes é permitido.
Os pais são permissivos.
Por isso elas se sentem donas do mundo e tratam os funcionários como vassalos.
Fiquei com vergonha.
Obrigada pela leitura que fez do meu texto e por agregar a ele tão rico comentário.
Beijos,
lu
Não sei… não sei… querida Lu.
o que ue quero dizer?
pois bem, definir o que seja o sadomasoquismo e a vitimização me parece, até, que não é tarefa das mais complexas, digamos assim. onde eu vejo o problema: como fazer este diagnóstico?
a partir de que dados podemos ter segurança para afirmar que esta ou aquela pessoa é portadora de um comportamento desta natureza?
e, no fundo, no fundo, arrisco dizer que todos nós, em algum momento, por fragilidade até, recorremos a este recurso. o momento em que isto passa a ser patológico e não só um jogo é que me parece complexo de estabelecer.
por aí, afilhada, por aí…
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 22:50
@luzete,
Madrinha Luz
Na vitimização a pessoa sente prazer em passar por tais transtornos, ainda que inconscientemente e, ao mesmo tempo, fazer as outras pessoas, a sua volta, sofrerem.
É um jogo cruel em que entram muitos parceiros.
O sofrimento é uma forma de dar vida ao ego.
Tanto é que a pessoa que passa pela vitimização, coloca-se como o centro de tudo, e usa desmedidamente o pronome na primeira pessoa… EU!
Beijos pelo carinho e pela passagem por aqui,
lu
Lu
Não consigo ver Sinara raivosa. A menina é um doce, agora a mãe dela …..
Fez bem em orientá-la para conversar com o professor, afinal tb pode errar.
Por que ressaltou a cor do escritor?
Por favor deposite R$ 0,25 centavos na minha conta pelo acesso. rs
beijinhos
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 22:55
@célia maria,
Celita
A Sissi também é uma pimentinha.
O mais doce aqui é o Moá.
Eu ressaltei a cor do escritor com o objetivo de mostrar que as pessoas que sofrem o preconceito, seja lá de que tipo for, tendem a se tornar vítimas, se não tiverem cuidado.
E, segundo o escritor, quanto maior é o preconceito, maior deve ser a força contrária.
Parabéns, você é uma boa observadora.
O depósito acaba de ser feito.
Obrigada pelo carinho da visita.
Beijos,
lu
Lu,
Como sempre brilhante!
Acredite, estava pensando nisso essa semana. Há pessoas que costumo chamar de vítimas do mundo, porque são sempre vítimas da situação, das pessoas, sempre com desculpas isso não deu certo porque fulano, aquilo não deu certo porque… E não estou falando em fazerem isso às vezes, o fazem sempre. Coincidentemente o livro que estou lendo mencionou que fazem isso para ter atenção, muitas vezes por confundirem atenção com amor. Pensei como isso é interessante porque alguns fazem isso porque buscam atenção que é igual a amor (na cabeça deles) e na verdade despertam nas pessoas sentimento de pena, ou seja , são vistos como incapazes e acredito sinceramente que não há amor sem admiração, ou seja, não terão o que procuram, por isso, se não sairem dessa posição serão eternos frustados.
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 23:00
@Agzelma,
Agzelma
O pior dos sentimentos que podemos despertar nas pessoas é o de pena.
Ter pena de alguém, na maioria das vezes, é considerar que a pessoa não é capaz de vencer os obstáculos em que se encontra.
Portanto, nunca permita a um namorado ficar com você, por pena.
Nenhum amor resiste à pena.
Assim como nenhum respeito.
É normal que o ser humano busque pessoas que o acionem para a frente.
Que usa a estratégia da vitimização para prender o outro, acaba ficando vítima das próprias artimanhas.
Obrigada pela sua presença querida.
Beijos,
lu
LU DIAS
Todos os seres humanos tem momentos de vítima.
Aquele instante de ficar parado,
chocado, quase em estado de choque,
um sossego irritante, no imaginar-se em um paradoxo,
com muita saúde, mas um Deus vencido.
É o sentir pesar como se fosse um pesadelo,
que não passa nem lembra que amanhã
será outro dia para tentar reverter
aquilo que amou e foi perdido.
O tempo passa como as nuvens
passageiras no céu de nossa vida,
e logo raia o sol quente do verão,
lembrando que sofrer não vale a pena.
O sorriso se abre, no semblante alegre,
deixei de ser vítima,
agora sou herói.
Ah, amiga, seus textos são o antídoto
que fulmina a letargia e nos traz para vida,
mesmo que seja ela um pouco sofrida,
mas na verdade tudo é mesmo alegria.
Lu Dias BH respondeu:
julho 3rd, 2009 at 23:07
@GUTIERRITOS,
Gutie
Não me refiro aos momentos de vítima, em que nos encontramos, vez ou outra.
Falo da vitimização como uma doença mental, em que a pessoa encasula-se para fugir da existência, exigindo que os outros respondam por sua vida.
E, mais do que isso, usam, muitas vezes inconscientemente, a chantagem para obter ganhos.
Isso é muito comum às mães castradoras, que não permitem que os filhos cresçam, de modo que possam permanecer sempre ao lado delas.
Os mais velhos, na família indiana, dão uma boa amostragem do que falo, principalmente quando dizem que vão se jogar no poço… de modo a obter vantagens, através do medo que incutem nos filhos.
Você continua poeta como sempre!
Beijos para você e a Dix,
lu
Culpar os outros é cômodo demais. Há muitos anos, vivi uma experiência muito interessante com meu segundo filho. Ele sempre tinha sido ótimo aluno, mas no primeiro ano científico, agora ensino médio, entrou numa de sair de noite que foi um horror. O rapazinho não parava em casa. Estudava de manhã, já trabalhava á tarde e ruava de noite. Um dia, o porteiro do prédio até comentou comigo: – mocinho forte, o da senhora. Chega tarde sai cedo. Ele não dorme não? Dormia sim. às vezes se deitava domingo de tarde e acordava segunda de manhã. Como era muito enturmado, o telefone tocava sem parar e lá ia o festeiro. Naturalmente, no fim do ano, ele passou em quatro matérias e levou bomba em cinco. Quando veio me contar eu falei: Mas você é um gênio! Como conseguiu passar em quatro matérias se dormia na aula, não comprou os livros e nem estudou? Ele me respondeu que precisava provar que não era CDF. Olha o dilema do indigitado. Depois compreendeu que quem sairia prejudicado era ele e voltou ao normal, terminou direitinho o científico, entrou na Universidade e se formou. Mas o caso interessante ocorreu na época da tal bomba, quando fomos procurados por um pai de um colega dele, me intimando a dar uma queixa dos professores na Delegacia de Ensino pela reprovação do filho dele e do meu. Que era um absurdo, que era um acinte, que os “meninos” ( já de barba na cara. Rala mas barba) era ótimos alunos e foram perseguidos, etc e tal. Fiquei ouvindo o lero-lero sem dar palpite, mas meu filho acabou com a festa do pai irado dizendo: – Minha mãe não vai dar queixa de nada não. Eu não passei porque não estudei nada. Não fui perseguido e tive as notas que merecia. O pai ficou estarrecido e falou comigo assim: – Como você deixa seu filho falar isto? Filho da gente nunca tem culpa não. E olha, Lu, este caso aconteceu há vinte e cinco anos. As coisas já era assim. Hoje, então, acionam até a justiça para impedir que seus filhos sejam responsabilizados, como em recente e triste episódio ocorrido aqui em BH. É de doer o coração ver como pais arruinam o caráter dos filhos e cavam a infelicidade deles.
Lu Dias BH respondeu:
julho 6th, 2009 at 13:43
@Hila Flávia,
Rapunzel
Muito interessante essa histórica contada por você, embora acontecida a tantos anos.
Deveria figurar em todos os livros escolares.
É incrível como os pais podem destruir os filhos, induzindo-os ao erro, esquecendo-se de que não viverão o tempo suficiente para os proteger em vida.
Todo pai que protege demais, cobra também um preço muito alto.
É como se fosse um negócio.
E a vida não é assim.
Os filhos devem ser criados com os pés no chão.
Com as “lamparinas do juízo acesas”, em benefício deles mesmos.
A escola da vida não perdoa.
Se não aprendeu, leva o peso do castigo.
Seu filho foi de um caráter inimitável.
Imagino que tipo de homem é ele hoje.
Só essa história dá a folha de seu currículo.
O Zeca da novela deverá ser um bom exemplo para os pais e filhos espectadores no final, espero eu.
Rapun querida, a sua participação é sempre u luxo.
Deixa-me feliz e comovida.
Beijos,
lu
Lu obrigada pelo conselho. O papel de vítima é o que menos me atrai. Hoje estou mais para Mulan do que Cinderela.
Bjos
Lu Dias BH respondeu:
julho 6th, 2009 at 20:48
@Agzelma,
Disso eu tenho certeza.
Fico orgulhosa de saber o quanto você vem evoluindo como ser humano.
Grande beijo,
lu